6 de dez de 2015

Suicida



Ele estava com um problema que parecia não ter mais fim. Estava falido e as dívidas se acumulam como água perto de bueiro entupido. Decidira que iria matar-se, decidira e pronto.
Mulher e filhos haveriam de compreender, a vida para ele era um tormento sem fim, horas e horas de angustia e dor.
Mas o problema que parecia não ter fim era exatamente este... Como matar-se? Julgou a principio que sem bebida não teria coragem suficiente, então na primeira tentativa comprou uma garrafa de vodka e a bebeu num gole, ou dois, não importa, mas bebeu e sentiu-se ótimo! Era invencível, no dia seguinte começaria vida nova, não havia motivos para matar-se. Era um homem feliz.
O drama, é que pelas manhãs, cheio de ressaca e dor, voltava a ser um lixo.
-Hoje vou me matar, não preciso beber, vou me atirar do prédio, será hoje!
Mas na hora H sentia que era preciso beber, sem bebida, sem coragem, comprou algo mais leve, um vinho, bebeu-o inteiro, olhou pela janela de onde planejava se jogar e achou as estrelas lindas, sentiu uma nova força interior, o vinho de Dionísio deu-lhe consciência que poderia mudar seu destino, assim dormiu confiante.
Nos dias que se seguiram era a mesma coisa, bebia pra criar coragem pra morrer e a bebida parecia lhe dar vontade pra viver. Um flagelo tal como Sísifo, Tântalo e Prometeu.

De cirrose morreu.


Por Vivian Guilhem

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